quinta-feira, 3 de julho de 2008

O que virá?

Nem Deus
Ousaria me contar

Não por não querer
Ou esconder dizeres
Atrás dos lábios

Não por mistério
Crescer por conta
De um causo

De um silêncio
Que se faz vazio

E instiga
Me come
Mastiga a carne

Depois
Bate o bife
Das costas

Joga
No canto
Do canto escuro

Me tira
Um sonho
Que dorme

Amanheço
Com a boca
De formigas

E cuspo
Esvazio o peito

Busco teus olhos
Com medo
Que você
Não me busque.

O que nem Deus sabe, assusta.


Julia Duarte.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Acabou

A pedra sobre
A canela dobrada
Faz o vinco

E o brinco
Cheio de solidão
Desprende amores

A bolsa
Aberta de recordações
Ilumina a superfície

No fundo,
Marcas da canetas sem tampas
Perdem vergonhas

O risco no fundo
Implora a ida
Sem volta

Amarra o cabelo
E desdobra
A conversa no bar

Pede uma passagem
Ao garçom
De bandeja vazia

Que reflete
Olheiras de noites
Meio-dias

E o remédio acabou.

terça-feira, 27 de maio de 2008

A noite.

Mexe
E pede um gole

Dispensa
O casaco

Beija o ar
De fumaça

Sua o que
Pediu no balcão

Desliga
Do mundo

Fecha
Um olho

Abre
O outro

A caixa
Estoura

E leva
Embora

Uma alma
Sã

Estica
No cimento


E pede carona
Com o que restou.


Julia Duarte

Vem?

Arrepia o corpo
No meu

Sobe e desce
O calor

Abraça
Pele com pele

Fala baixo
No ouvido

Beija
Meu beijo

Olha
Pra cima

Me sente
De baixo

Vira
A página

Respira
O lençol

Segura
A cama

Luta
As pernas

Relaxa
Sem dor

Mexe
O pescoço

Me encontra
De olhos

Pintados



Julia Duarte

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Eu cuido da casa

Acendo a vela
Te confundo
Com o contorno
Dos móveis

Imóveis

Do livro de receitas
Me faço Chef
Da solidão
Me sirvo

Inerte

Junto
Cílios com cílios
Enrolo o terço
E me apago

De ti

Lembro
Inconsciente
Quando doente
Fico assim

Sem fim


A casa grita
No eco
Da tua ausência
Descabida

As roupas vazias

Não dançam
E descansam
Murchas
De você

Pego o terço
E mordo
E cuspo
E quebro

Pego a vela
E derreto
Até queimar
Os dedos

Abro a bíblia
E faço de cada
Página

Mil
Pe-da-ci-nhos






Julia Duarte.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Acredita.

Cospe em pautas de música
Acredita o teu sangue

Sangra o lápis
Na ponta dos dedos
E acredita a tua dor

Treme o músculo
no ritmo do palco
E acredita a tua fadiga

Chama o teu suor
Em volta da fogueira
E acredita a tua chuva

Carrega o teu filho
Nas costas deitadas
E acredita a tua vida

Convoca os santos
Espanta a noite
E acredita a tua alma

Guarda um segredo
Faz dele uma arma
E acredita o teu mistério

Vomita a tua culpa
Vai embora para sempre
E acredita na leveza



Julia Duarte.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Lembro

Lembro do adeus
Que guardei
Nas mãos
Que não acenaram

Lembro do beijo
Que carrego
Até hoje
Dentro da boca

Lembro da carta
Que guardo
No guardanapo
Amassado

Lembro da foto
Recém tirada
Com a dedicatória
Em branco

Lembro da noite
Triste
Que ensaiei
A serenata

Lembro da dor
Que guardo nas costas
Embaixo da nuca
Pelada

Lembro do amor
Que nunca te dei


Lembro de você
E sufoco.


Julia Duarte.