sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Zero.

Para que serve o futuro
se você não consegue prever o agora?

Para que serve a resposta
se tudo que você tem são perguntas?

Enquanto isso
o passado muda a toda hora.

É como um livro que você lê
pela segunda vez.

É como uma ficha
que espera o balanço do vento para cair.

E assim, de repente.
tudo faz algum sentido.

Para que servem os planos
se a vida simplesmente acontece?

Não adianta buscar nos bolsos
dos casacos do inverno passado
o telefone do seu amor

Porque você não nasceu para repetir.
Nem casacos, nem amores.

Se o ar é fresco
o seu coração também merece ser.

Não deixe seus sonhos
recheando seu travesseiro.

Pegue uma tesoura
e fure pena por pena, sem pena.

Carregue seus sonhos
embaixo do braço.

Porque chegou a hora de usufruir.

And go.


Julia Duarte.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Casamento.

Alguém já recusou a sua companhia?
O seu convite?
O seu beijo?
O seu amor?

Você já seguiu um olho tímido?
Já fugiu de um olho vivo?

Você já imaginou alguém para imaginar com você?

Você já se imaginou casado?

Casar é imaginar quente
o que antes era solidão.

É dedicar uma estrela
por bem mais do que uma noite.

É assinar um cartão de amor
com o mesmo sobrenome 
de quem vai receber.

É se imaginar solteiro
e gostar de cair na realidade.

É entrelaçar as pernas antes de dormir.

É ter um ombro para encostar.

É fazer parte de outro corpo.


É dividir a luz da vela em cima da mesa.

É roubar a cereja da sobremesa.
Do outro.


Quer casar comigo?


Julia Duarte.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Ficar viuva é viver uma lacuna da vida.

Deu adeus ao santo
E dormiu sem rezar

De lágrimas secas
fazia-se o canto do olho
Quando acordou

Vestiu o luto
Saiu a beber
Repetindo palavras
e tremendo a voz

De caneta na mão
Se pôs a desenhar
caricaturas
Em ziquezague

Despediu-se
da garrafa
que como ela
figurava vazia

A capa preta
amorteceu os pingos grossos
quando o céu chorou
a sua volta

Já era dia
quando ela
rezou só

por um dia de sono
e uma vida
sem lacunas



Julia Duarte

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Oxidação.

De ferrugem
se faz um corpo que ressuscita

Parado
durante uma vida
acompanhando
a decomposição

de sua própria carne

Chora a alegria
de voltar

Abrir o peito
para discutir a calma
e o silêncio

De encontrar
um mundo reescrito

Pronto para receber
dobradiças
que não precisem de óleo

Deprimido
ao ranger da primeira curvatura

Cheio de palavras roucas
despede-se

Para mais um descanso.


Julia Duarte.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Ex família.

Ela me acenava
Cada vez que partia pra Porto Alegre
Quando voltava
Levantava as sobrancelhas
Mirava o queixo na minha testa
E os olhos escapavam
Por baixo das grossas lentes
De coxas macias e quentes
Eu me fartava
Ela abria um livro
Eu fechava a boca
E a rede balançava
O ar que vinha do mar
Disfarçado de brisa
Já anunciava o furacão
Mas enquanto isso
Eu voava com o timbre
De voz que percorria palavras impressas

Eram estórias
Cantadas

Eu saí do colo
E a chuva marca o tempo
Anos e anos
Desenlaçando
A família

Com desdém
Ela enterrou seu sobrenome

Em mim.


Julia Duarte.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

O que virá?

Nem Deus
Ousaria me contar

Não por não querer
Ou esconder dizeres
Atrás dos lábios

Não por mistério
Crescer por conta
De um causo

De um silêncio
Que se faz vazio

E instiga
Me come
Mastiga a carne

Depois
Bate o bife
Das costas

Joga
No canto
Do canto escuro

Me tira
Um sonho
Que dorme

Amanheço
Com a boca
De formigas

E cuspo
Esvazio o peito

Busco teus olhos
Com medo
Que você
Não me busque.

O que nem Deus sabe, assusta.


Julia Duarte.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Acabou

A pedra sobre
A canela dobrada
Faz o vinco

E o brinco
Cheio de solidão
Desprende amores

A bolsa
Aberta de recordações
Ilumina a superfície

No fundo,
Marcas da canetas sem tampas
Perdem vergonhas

O risco no fundo
Implora a ida
Sem volta

Amarra o cabelo
E desdobra
A conversa no bar

Pede uma passagem
Ao garçom
De bandeja vazia

Que reflete
Olheiras de noites
Meio-dias

E o remédio acabou.