segunda-feira, 30 de março de 2009

Sou

Sou a cabeça
encostada na parede

Sou os braços
cruzados em cima do sofá

Sou as pernas
embaixo do chuveiro

Sou o fio de cabelo
no travesseiro quente

Sou a boca
dentro da geladeira

Sou os dedos
que dançam no piano

Sou os pedaços
que engolem espaços

Soltos no ar

Sou a promessa
escrita na mesa

Sou o diálogo
antes de dormir

Sou o que já fui
mas também ou que vou ser

Sou pela metade
do caminho

Sou a desconstrução.


Julia Duarte.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Ainda não sei quando vou voltar.

Foram dias
e noites

Anos
e anos

Eu me encolhi

Não foi de frio
Não foi de sono

Foi de medo

Meus ossos convidaram
a carne
para entrar

Aprisionando
o calor que movia o contorno

Da estrurura
balançada

A vergonha
intimida a coragem

Desfaz luzes
e espelhos

A pálpebra
esconde o brilho do olho


como um cobertor

que esconde

um corpo gelado.



Julia Duarte.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Tempo

Me procuro nas rugas das mãos
Na linha da vida
(que nunca soube qual era)
Nos anéis
que envelhecem com os dedos

Me procuro
no reflexo da janela
fechada
No relógio de pulso
parado

Me procuro
Nos segundos
De um tempo
que despenca
e me falta

Me encontro
ajoelhada
em um canto de mim
rezando
em silêncio

implorando
para que a luz não venha
e eu não corra o risco
de me enxergar
velha

E que se espalhem
as cinzas
da minha juventude.



Julia Duarte.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Eu digo.

Eu digo
e não acredito

Eu digo
e repito baixinho

Eu digo
e ouço a voz tímida e trêmula

Eu digo
pra mim mesma

Eu digo
de novo

Eu digo
e ainda não acredito

Eu digo
um pouco mais alto

Eu grito
e me jogam tomates

Eu grito
e me acusam de mentirosa

Eu grito
e tentam pregar meus lábios

Eu grito
E muitos ensurdecem

Eu grito de novo
e a mentira vira verdade

Julia Duarte.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Daqui de cima.

O mundo gira
Gira mundo

Do meu pranto
Se faz
a chuva

Do meu passo-largo
Se faz
o trovão

Do meu sexo
Se faz
o terremoto

Do meu assobio
Se faz
A brisa

Do meu espirro
Se faz
O furacão

Do botão sem prega
Se faz
O disco voador

E quando
O cabo da vassoura batuca

Ando de mansinho
E se fazem dias silenciosos.



Julia Duarte.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

A rejeição é eterna.

A carne trêmula
se esconde em trapos
de pele

A pele
se esconde em tecidos
de luxo

O luxo
se esconde em olhos
partidos

Pupilas
dilataram ao grito
de um: “Vai embora”

Cheio de dúvidas
e eterno.


Julia Duarte.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Ela.

A falta dela
me corta a carne

A voz ausente
é tão grave

A camisola
veste a cadeira

Mas a cadeira
não é ela

E mesmo assim
eu sento e me basto

A foto dela
me corta os dedos

Como se de sua pele
brotassem espinhos

Gotas de lágrimas
espremem meus orgãos

Só crescem
Não saem

Guardo o choro
embaixo do pâncreas


E se falo dela
não é obsessão

Não é culpa
nem doença.



É saudade.




Julia Duarte.