terça-feira, 1 de abril de 2008

Dois pra lá

Eu era uma zebra
Preto no branco
Branco no preto

Cor sim
Cor não

Beijava o vento
Deitava na grama
Corria sem dó

De ser só

Pulei a cerca
Desfiz o vestido da moça
Adormecida de susto

Fugi da baia

Sequei a saliva
De tanto correr
De tanto querer morrer

Não é fácil
Viver pela metade
Chorar de saudade

Mandei telegramas
E nada descobri
Órfão desde sempre

Chorei

Zoológico
É o Carandiru dos animais
Morri de mim

Encontrei o menino
Que me ensinou a dançar
Dois pra lá, dois pra cá

E comecei a viver
No circo

E lá
Trabalhava um mágico
Que também era empacotador de supermercado

Ela fazia tudo desaparecer

Implorei
Mas ele negou
Paguei
Mas ele não aceitou

Decidi

Dar uma de equilibrista

Herdei ainda mais listras
Marcas da rede de proteção

Que me devolveu
Para sempre

Deu zebra.

quinta-feira, 27 de março de 2008

J & J

Eu guardei acordes
Um gole d’água antes de dormir
Um guardanapo em branco

Eu guardei o tempo
Mas ele se foi
Se despediu

Com a pressa
Dos ponteiros

Mas eu corri atrás
Da canção

De frente para o palco
Decorei a cena
E cada detalhe seu

Para repassar
Até a sua volta

O canto da sua boca
ainda sorri para mim

Eu comentei
Para mim

Sorri
Para mim

Porque você não estava

E eu não quis
Te substituir

Reservei
Um lugar só seu

Um sonho só meu
De alguém que se foi

Deixou lembranças
E fé

A esperança de errar
De novo
Ainda está contigo

De rir
No silêncio da dor

De esticar as pernas para cima
E sentir a leveza
De se descobrir bem

Então,
Meu bem

Eu guardei tanto para você
Que mal cabe em uma garrafa de vinho

Mas o seu lugar
Ainda vazio
Está aqui

E se hoje eu choro
É de felicidade

Porque falta pouco
Para você voltar

Não vou mais pensar em você
Vou ter você

De novo.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Flores

Ela fechou a porta
A outra dormiu os olhos por um segundo

Ela prometeu não voltar
A outra chorou de amor

Ela deixou seu cheiro
A outra sentiu saudades

Ela deixou um bilhete
A outra não leu

Ela não ligou
A outra herdou o silêncio

Ela foi procurar seu tempo
A outra ficou sem ar

Ela disse que voltaria um dia
A outra acreditou

Ela se entregou para alguém
A outra cobriu o rosto com a palma da mão

Ela dançou seu corpo em outras pernas
A outra se perdeu

Ela sorriu
A outra dormiu para sempre

Ela comprou flores
A outra gelou

Ela foi dizer adeus
A outra não se mexeu

Ela abraçou
A outra não sentiu

Ela fechou os olhos da outra
E a outra não abriu

sexta-feira, 14 de março de 2008

Beijo

Um beijo é pluma

E apesar do sonho meu

Escapa para o céu


Um beijo é doce

Quando a língua passeia pelos lábios

Até que o açúcar acabe


Um beijo é verdade

Depois de unir os lábios

Se unem olhares fixos


Um beijo é ilusão

Você encontra uma outra língua

no escuro do sono solto


Um beijo é paixão

O tempo não passa

E você gruda


Um beijo é despedida

As bocas descolam

Para a lágrima passar


Um beijo é culpa

Mal acontece

Em virtude do que já foi


Um beijo é o que você quiser.

terça-feira, 4 de março de 2008

P-a-l-a-v-r-a

Eu pego cada palavra sua

E desmaio


Letra por letra

Sem som

Sem métrica


Na estética da imaginação

Que cresce em segredo


Palavras que viram música

Aos poucos

Ao pé do ouvido


Que pede o beijo

E encosta no travesseiro

Que me abraça para sempre


De olhos fechados

Suas palavras ecoam

Opiniões


Porque a verdade só eu sei


É bom ter apenas a metade do mundo

E assim procuro todo o resto quando abro a janela

Os olhos

Os braços

As pernas


Para você entrar.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Hoje

Quero tomar um café com você

Em Bajo Caracoles

Bem na época em que de lá o vento foge


Quero encontrar seus dedos

passeando pelos grãos de açúcar caídos na mesa


Depois de um tempo,

Se houver alguma chance, você estará um gelo

Pouco à vontade

Pela saudade que sopra qualquer palavra boba


Ou então,

vai procurar meus olhos

assim que tirar o óculos


E, em um corredor de ar,

Vai me dizer tudo

Em silêncio


Talvez me mande embora

pague a minha passagem de volta
para não se incomodar


Você poderia me visitar

Jogar na minha cara tudo que fiz

Chorar a dor

E me beijar de amor


Quem sabe mandar um recado?

Eu poderia mandar uma carta


Só para você abrir

E descobrir o meu amor

Como se fosse novidade


E se você não abrir?

Eu viajo para longe

Esqueço o seu endereço

O seu nome e o seu cheiro


Eu podia parar de pensar

E agir na sua direção

Mesmo que não adiante

Mesmo que eu sinta medo


Eu só queria me encontrar em você.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Um par.

Me convidei para passear

E foi tão bom

E foi tão ruim



Os dedos dos pés molharam na grama

Congelaram com o tempo

Ficaram duros como pedra



As pernas

(de fora)

Corriam para esquentar

Ou fugiam para não entrar na casa



Vazia



Contei as horas

Os minutos

E todos meus segredos



Para o alto do muro



Com a mão direita

Toquei o ombro esquerdo

Com a mão esquerda

Toquei o ombro direito

Joguei a cabeça para cima



E esperei



Mas por trás do muro não havia ninguém



Molhei os joelhos na grama

Agarrei o escapulário

Juntei as mãos e pedi:





Um par de olhos

Para me cuidar enquanto durmo



Um par de mãos

Para me puxar de volta quando eu quiser partir



Um par de pernas

Para me abraçar durante as noites



E ganhei




Um par de silêncio

Em meus ouvidos





Julia Duarte