quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Um poema para uma irmã chamada Joana.

Não seja mãe
sem ter dado a luz

Desenhe aquilo
que você pode contornar

Na hora de rezar
pense em você

Arranque da carne
o prazer entrelaçado nas costelas

Sopre o pó
dos seus pés aprisionados

Caminhe
Pisoteando o tic-tac

Você pode
o que quiser

Sua estrutura é maior
que a carcaça

O alcance de seus olhos
se faz pequeno

Como qualquer
ser humano em demasia

Não acoberte com os cílios
a vista da vida

Bata na minha porta
para um café forte

E acorde para nascer de novo
só para você.


Julia Duarte.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

A surpresa é o orgasmo.

Enferma
Cheia dos não-me-toques

A vida descansa
e respinga gargalhadas

Cochicha
sobre a sujeira

Não pisca
sobre a traição

Condena
pelas costas das mãos

Em orações
demolidas

O importante
é amar

Selar o beijo
e a dor

Meu pai sempre disse:

- Seja feliz.

Minha mãe sempre disse:

- Pense antes de fazer qualquer coisa.

Impossível ser feliz
se planejada a vida

A surpresa
é o orgasmo

Escondido
nas esquinas de uma vida traiçoeira

Que ordena.
E mais nada.


Julia Duarte.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Temporal.

Eu
e as nossas diferenças

não brigamos
não nos amamos

Eu esqueço
Você lembra

Eu perco o jeito

E o ar sai dos pulmões
Balança árvores

Levanta batinas

Embaralha preces

Areias
ferem canelas e olhos

Cabelos
escondem rostos

Lágrimas secam escorridas

O vento assobia
E o lixo,
o lixo rodopia para cair no mesmo lugar


Nossas diferenças passam

Sobra
eu e você

Até a próxima
tormenta.


Julia Duarte.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Às vezes decido não te amar.

Me sento
de frente para o tempo


E lembro


De quem me esculpiu
em carne
e sangue

De quem me refilou
com a ponta dos ossos
de um corpo cansado

De quem colocou a mesa
e me esperou
com a comida quente

Por noites
e noites

Lembro

De quem acordou
dormindo

Olhou pra mim
e disse:


_




Lembro até hoje
Quando volto
no tempo


Às vezes decido
ir embora

E voltar a amar você.





Julia Duarte.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Um poema para aquelas pessoas que salvam vidas sem fazer força.

Meu peito já doeu muito
Senti o amor saindo pela garganta
Arranhando o verso da carne

Dormi com o coração dilatado
Batendo com pressa
para viver de uma vez

Sangrei os joelhos
de tanto implorar
o fim

Lembrei tanto
do pranto de alguém
que hoje nem lembro o nome

Encontrei você.



Julia Duarte.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Quando você não me amou.

Encolhi os braços
para encaixar no desenho que você fez de mim

Arregalei os olhos
e apertei a boca

Foi quando ví
que o recheio dos teus traços
não era eu

Cresci na melodia
da música
que você escreveu

Mas a serenata
nunca subiu
pelo pé da minha janela

Virei o enigma
de um texto hermético

Como um chumbo
que cai na água
caí na cama

Macia
de abraço certo

Chorei
e me expulsei
criança

Vomitei versos
impressos no chão

A poesia marca o tapete.



Julia Duarte.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Zero.

Para que serve o futuro
se você não consegue prever o agora?

Para que serve a resposta
se tudo que você tem são perguntas?

Enquanto isso
o passado muda a toda hora.

É como um livro que você lê
pela segunda vez.

É como uma ficha
que espera o balanço do vento para cair.

E assim, de repente.
tudo faz algum sentido.

Para que servem os planos
se a vida simplesmente acontece?

Não adianta buscar nos bolsos
dos casacos do inverno passado
o telefone do seu amor

Porque você não nasceu para repetir.
Nem casacos, nem amores.

Se o ar é fresco
o seu coração também merece ser.

Não deixe seus sonhos
recheando seu travesseiro.

Pegue uma tesoura
e fure pena por pena, sem pena.

Carregue seus sonhos
embaixo do braço.

Porque chegou a hora de usufruir.

And go.


Julia Duarte.