sexta-feira, 14 de março de 2008

Beijo

Um beijo é pluma

E apesar do sonho meu

Escapa para o céu


Um beijo é doce

Quando a língua passeia pelos lábios

Até que o açúcar acabe


Um beijo é verdade

Depois de unir os lábios

Se unem olhares fixos


Um beijo é ilusão

Você encontra uma outra língua

no escuro do sono solto


Um beijo é paixão

O tempo não passa

E você gruda


Um beijo é despedida

As bocas descolam

Para a lágrima passar


Um beijo é culpa

Mal acontece

Em virtude do que já foi


Um beijo é o que você quiser.

terça-feira, 4 de março de 2008

P-a-l-a-v-r-a

Eu pego cada palavra sua

E desmaio


Letra por letra

Sem som

Sem métrica


Na estética da imaginação

Que cresce em segredo


Palavras que viram música

Aos poucos

Ao pé do ouvido


Que pede o beijo

E encosta no travesseiro

Que me abraça para sempre


De olhos fechados

Suas palavras ecoam

Opiniões


Porque a verdade só eu sei


É bom ter apenas a metade do mundo

E assim procuro todo o resto quando abro a janela

Os olhos

Os braços

As pernas


Para você entrar.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Hoje

Quero tomar um café com você

Em Bajo Caracoles

Bem na época em que de lá o vento foge


Quero encontrar seus dedos

passeando pelos grãos de açúcar caídos na mesa


Depois de um tempo,

Se houver alguma chance, você estará um gelo

Pouco à vontade

Pela saudade que sopra qualquer palavra boba


Ou então,

vai procurar meus olhos

assim que tirar o óculos


E, em um corredor de ar,

Vai me dizer tudo

Em silêncio


Talvez me mande embora

pague a minha passagem de volta
para não se incomodar


Você poderia me visitar

Jogar na minha cara tudo que fiz

Chorar a dor

E me beijar de amor


Quem sabe mandar um recado?

Eu poderia mandar uma carta


Só para você abrir

E descobrir o meu amor

Como se fosse novidade


E se você não abrir?

Eu viajo para longe

Esqueço o seu endereço

O seu nome e o seu cheiro


Eu podia parar de pensar

E agir na sua direção

Mesmo que não adiante

Mesmo que eu sinta medo


Eu só queria me encontrar em você.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Um par.

Me convidei para passear

E foi tão bom

E foi tão ruim



Os dedos dos pés molharam na grama

Congelaram com o tempo

Ficaram duros como pedra



As pernas

(de fora)

Corriam para esquentar

Ou fugiam para não entrar na casa



Vazia



Contei as horas

Os minutos

E todos meus segredos



Para o alto do muro



Com a mão direita

Toquei o ombro esquerdo

Com a mão esquerda

Toquei o ombro direito

Joguei a cabeça para cima



E esperei



Mas por trás do muro não havia ninguém



Molhei os joelhos na grama

Agarrei o escapulário

Juntei as mãos e pedi:





Um par de olhos

Para me cuidar enquanto durmo



Um par de mãos

Para me puxar de volta quando eu quiser partir



Um par de pernas

Para me abraçar durante as noites



E ganhei




Um par de silêncio

Em meus ouvidos





Julia Duarte

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Socorro

O cérebro esquentou a noite

Aprisionou seu sono


Com linhas pretas

E uma agulha

Há de costurar a ferida


Enquanto a repulsa morre

E aos poucos seus olhos abrem

O cheiro de vida levanta

Como poeira que sobe


Para espirrar a dor

É preciso um tanto de liberdade


Foi quando saiu dos cantos

Removeu suas células perdidas

E pediu socorro


Mal sabia que colocar o vírus para fora

É dar as mãos para as cores

E largar as dores


Julia Duarte

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Para sempre.

“Eu estou pronta para ser feliz”
Disse ela com uma bolsa na mão.

Saiu para ver o mar
Escreveu linhas e linhas na areia.
Esperou a onda apagar
Guardou a lágrima atrás dos olhos
E foi embora para sempre

Disse ao taxista que tinha uma fantasia
Mostrou as pernas tenras
Molhou os lábios com a lingua
Descansou a mão no seio esquerdo

Era dor no coração

Pediu para descer antes
Cobriu as pernas enquanto andava desolada

Quando o vento nasceu de costas para o mar
Veio de repente a força que balançou sua blusa
Como se fosse uma cortina
Foi então que apareceu a janela de sua alma

E ela resolveu voltar para sempre


Julia Duarte

Vivo só.

Era uma tarde desesperada

No vento
A porta dançava
Enquanto ele escrevia

Entre virgulas
O nosso amor nascia
Dando adeus a mais uma página
Em branco

Enchia os pulões de mim
No cigarro que segurava com o indicador e o dedão
E apagava na sola da bota
Amontoando um cancer no cinzeiro

“você já pensou em ir embora?’’
Sua voz morreu em meu silêncio

Ele é que pensava em partir
Hoje sei o covarde que era
Antes de dormir ao meu lado
Mal me olhava no olho

“Eu te amo”
E o amor dele morria quando terminava de pronunciar o “o”.

Sequei de amor
E vivo só

Não me amo mais do que um segundo
Que acaba quase antes de começar.


Julia Duarte